da época em que pulseirinhas de estrela estavam na moda

quando você chegou com aquele papo que eu sabia ser furado, mas caí, logo vi que meu mundo estaria fadado a você por um tempo impresso em etiqueta. ainda demorei umas horas pra descobrir onde ela estava colada, mas no parque parecia ter escurecido ao meio dia e eu quis celebrar a noite usando nenhuma peça de roupa com você. roubei seus melhores sonhos e enfiei na bolsa, carreguei bolsas cheias de todas as coisas que são suas e serviam para enfeitar aquele apartamento impregnado da história de alguém. vim pra casa, e ainda assim era você quem eu era. voltei pra onde eu começava, e eu passei a começar num sábado de manhã, quando você ainda bêbado acenou e eu disse não, e quando sem notar, não conseguia deixar de pensar em você e deixei quem me esperava, me esperando e fui ter com o tempo aquilo que fica pra sempre.
e ele foi passando, o tempo. e me deixando certa de estar no meu lugar todos os dias às 14h quando naquela esquina eu via você sentado, a minha espera, com o sorriso e os braços projetados pra mim.

e quando você me dava uns nomes e me levava no topo de algum prédio pra ver alguma coisa eu tinha medo de serem sempre últimas vezes, e me despedia de tudo que é bom todas as manhãs quando o despertador nos acordava com guided by voices tocando doído uma música feliz. e meu abismo era chegar em casa e você ter feito a pior sopa que já tomei na vida com a melhor intenção de todas. e me buscar, e me pegar, e me esperar, e na minha direção caminhar. aí eu fiquei sabendo das verdades desses momentos eternos e não mudou muita coisa, além das comidas terem mudado e eu fui indo, indo, te levando pra ver os peixes, revelar fotos em papel barato, me salvar nos trabalhos de faculdade e deixar todo mundo com cara de paisagem ao deixar o mundo pra mim, pra irmos deitar num colchão, olhar o teto, e não ver nada além daquilo ali, que éramos nós.

foi quando você disse que ia embora que eu achei ter entendido tudo e não entendi nada, e chorei de medo. e você chorou de medo do que podia acontecer com seu pé.
e chorei de frio. e você calou.
e chovi. chovi por dias. e você abria guarda-chuvas, sem entender que eu era a chuva.
daí você começou a ventar, e eu não me protegi do vento, só te levei na rodoviária com o coração dentro de um envelope, já selado. não sei o que aconteceu, mas perdi a carta no meio das nossas coisas, as suas, as minhas, eu e você, e acabei não me mandando pra você.

e quando você veio visitar o que tinha sobrado daqui, encontrou pouco mais ou menos do que deixou e segurou minha mão a caminho dos peixes, segurou sacolas e me segurou o pescoço antes de pegar no sono, aí sim, aí era verdade nosso passado. aí era sim, era sempre e era nosso.
foi hoje que eu notei a falta que fazem essas histórias de nós dois que podemos viver com qualquer pessoa, a qualquer momento.
então vamos.

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